A ilusão da meia entrada.

Primeiramente, o porquê do assunto. Dia 27/11 tem o show de lançamento do “Infinito”, nosso novo cd, em São Paulo. Hoje a gente escreveu um post no Facebook da banda falando sobre a venda dos ingressos. Dentre várias informações, anunciamos os preços: R$ 30 a meia-entrada e R$ 60 a inteira.

É claro que houve alguns comentários falando que R$ 60 é muito caro e, antes de qualquer coisa, já adianto pra vocês: eu concordo.

Agora, explicarei rapidamente porque o ingresso acaba TENDO QUE SER mais caro

Ao planejar qualquer evento, levanta-se o custo total. Pegando o nosso exemplo, vamos dizer que esse show da Fresno no Beco custará X reais. Após cálculos que levam em conta muitos fatores (custos de equipe, deslocamento, alimentação, aluguel da casa, capacidade do lugar, público estimado, etc.), concluímos que para o evento ser realizado com sucesso o ingresso deveria custar 35 reais.

Nossa intenção inicial era liberar um lote único para todo mundo custando R$ 35 cada ingresso.

E é aí que entra a (falha) lei da meia-entrada. O que é a lei? Bom, o governo determina que estudantes, idosos e alguns outros grupos de consumidores paguem metade do valor do ingresso nos eventos/espetáculos/etc. Está na lei. É obrigatório.

Estudos apontam que, devido à lei, 8o% dos ingressos vendidos para eventos são pela metade do preço.

Voltando ao show da Fresno. Com cada pessoa pagando R$ 35, o evento seria realizado. Com 20% das pessoas pagando R$ 35 e 80% das pessoas pagando R$ 17,50, o evento não seria realizado. É simples. Ia ficar um rombo na conta final.

Aí nos perguntamos: serão os estudantes/idosos/etc. 80% dos frequentadores de eventos? É lógico que não. Outro estudo aponta que pelo menos metade dos ingressos vendidos como meia-entrada são para pessoas que estão fraudando a lei, seja com carteirinhas falsas ou similares. Enfim, essa é outra questão. Voltando ao foco.

É necessário fazer um novo cálculo para o show, tendo em vista que 80% das pessoas pagarão metade do valor e 20% pagarão o valor completo. Chegamos aos preços de R$ 30 para a meia-entrada e R$ 60 para a inteira. O valor arrecadado será o mesmo. Só que virá em diferentes quantidades de diferentes fontes.

Claro que isso não é exclusivo do show da Fresno. Pelo tom de alguns comentários no Facebook e Twitter, vou passar para a realidade dessas pessoas.

Vamos supor que um show do Justin Bieber custe R$ 20.000.000. Com uma estimativa de 40 mil pessoas, o ingresso poderia custar R$ 500 reais, certo? Pela conta, R$ 500 x 40.000 pessoas = R$ 20.000.000.

Entra a lei da meia-entrada. Aproximadamente 80% dos espectadores pagará 50% do ingresso (R$ 250), e apenas 20% pagará o valor cheio (R$ 500). Refazendo a conta, (32.000 pessoas x R$ 250) + (8.000 pessoas x R$ 500) =   R$ 12.000.000. Pimba! Prejuízo de R$ 8.000.000 por causa da lei. Logo, o contratante do Justin Bieber precisará aumentar (e muito) o valor do ingresso para poder contratá-lo. (Por curiosidade, eu fiz a conta desse show hipotético, e o novo ingresso custaria R$ 833, com a meia-entrada a R$ 417).

Onde eu quero chegar? O governo criou a lei, mas TIROU O CU DA RETA. Sai como o bonzinho da história e joga a culpa para cima de quem organiza o evento. Para o governo, não faz diferença quem está pagando mais e quem está pagando menos.

Vou dizer quem está pagando a conta: as pessoas que pagam ingresso no valor completo. E vou dizer quem NÃO ESTÁ pagando meia-entrada: o estudante, o idoso… Ou melhor, está pagando a meia-entrada ilusória. A 80%-entrada.

Logicamente, quem fez a lei desse jeito é um imbecil. Vou propor duas alternativas:

1) aplicar-se-ia meia-entrada obrigatória apenas em eventos públicos, do governo. O evento particular teria a OPÇÃO de cobrar meia entrada. Aí sim, dessa forma, as pessoas poderiam cobrar os organizadores, caso esses optassem por não disponibilizar a meia entrada.

2) o governo subsidiar as meia-entradas. Se ele decide que algumas pessoas paguem metade do valor, ele que reembolse o organizador com a outra metade. Os preços permaneceriam os originais. O Fresno custaria R$ 35 para todos, o Justin Bieber R$ 500. Isso é a coisa mais utópica que eu já escrevi na minha vida, mas, num mundo ideal, seria o correto.

Enfim. Teoricamente, existem milhares de deputados e afins pensando e re-pensando projetos de lei. Vamos dar uma olhadinha melhor nisso? Do jeito que está, todos saem perdendo.

P.S.: não venham, de forma alguma, dizer que eu não acho que estudantes e idoso têm que pagar mais barato. Eu NÃO DISSE ISSO. Mas como eu conheço o naipe de alguns comentários, é melhor me prevenir.

P.S.2: o Brasil é o único país do mundo com a meia-entrada obrigatória por lei.

P.S.3: quem quiser ir ao show, o link para compra online é esse: http://ticketjam.com.br/Evento/Exibir/134-FRESNO. Ou então, nas bilheterias do Beco 203, das 14h às 18h, de segunda a sexta. Endereço: Rua Augusta, 609 – Consolação – São Paulo.

P.S.4: coisa boa não ser um jornalista profissional e poder usar a expressão “tirar o cu da reta” num texto.

20 respostas para A ilusão da meia entrada.

  1. thiago disse:

    Muito bom, concordo 100% com sua opnião.

  2. Leticia disse:

    Eu comprei 2 ingressos por 30 reais, e quando comprei não tinha nada avisando sobre meia entrada ou então eu não prestei atenção. Resumindo: eu me fudi !

  3. Mariana disse:

    Melhor explicação! (mesmo achando que nem precisava, acho caro não tem a grana? simples não VAI) eu acho assim eu sinceramente não tenho DINHEIRO pra ir mais se eu tivesse pagaria muito mais pois sei como é difícil ter banda no brasil (apesar de não ter) a maioria da galera acha que todos são Bilionários e que deveriam tocar de graça mais nem é bem assim MUSICO é TAMBEM é uma PROFISSÃO! QUEM é FÃ com certeza não reclama porque FÃ que é FÃ da o REAL VALOR QUE A BANDA MERECE!

  4. Muito bom!
    Concordo com você!
    E na boa… “P.S.4: coisa boa não ser um jornalista profissional e poder usar a expressão “tirar o cu da reta” num texto.”
    Mitou nessa! kkkkkkkkkkkk

  5. fui no show do The Used esses das e tive q pagar inteira…220 reais…ai na hora do show um monte de pivete q paragam meia entrada pra ver o Evanescence (The Used abriu o show O.o) ficaram vaiando o show dos caras…fiquei puto pela injustiça de pagar mais cara e ter q aturar isso…

  6. Junior Lupinacci disse:

    Por esse motivo todos reclamam de shows pequenos com valores absurdos e de festivais como Rock in Rio, Planeta Terra, Lollapalooza, etc. com preços abusivos como 250, 300, 350 reais na entrada inteira.
    A conta do 80% dos utilizadores de meia entrada justifica muito bem os valores abusivos e a má conduta da grande maioria que não estuda e falsifica carteiras de estudante nos leva ao velho ditado do “aqui se faz aqui se paga” eles agem de má fé, nós pagamos.

  7. E na Copa das Confederações/Copa do Mundo não vai ter meia entrada para estudantes. Procede?

  8. Marcelo disse:

    Manuela D’Avila é o nome dela.. Criou a lei da meia entrada e ferrou todo mundo que é honesto.

    Além disso essa mesma pessoa mudou as regras do estágio e no primeiro ano diminuiu 60% as vagas de estágio no Brasil.

  9. Mari disse:

    Ajudaria se as pessoas que pagam meia fossem realmente idosos e estudantes, não gente que está fazendo uma faculdade fantasma na carteirinha desde que terminou a de verdade. Nesse caso, não daria 80% do público (dependendo do evento, alguns sim). Pq eu ñ consigo fazer isso e sou sempre aquela que banca a meia entrada alheia.

  10. Lembro que na turnê recente dos Los Hermanos, rolou alimentos e livro em troca de meia entrada, mas aqui em SP foi cortado de última hora pelo governo o benefício, ridiculamente.

    E realmente é foda. Tem que ser simples e direto: Se o ingresso não for esse preço, tem prejuízo no final, tendo prejuízo não tem show, não tendo show, a banda não tem o lucro e o público o espetáculo.

    Quem puder, vai. Quem não puder, assiste pelo Youtube depois.

  11. Hildo disse:

    De acordo com o processo legislativo brasileiro, quem propõe, vota e cria essas leis são SEUS deputados federais eleitos.

    A briga é com quem vc escolheu pra te representar, não com esse ente que a pachecada resolveu estabelecer como a coisa mais maligna da história da humanidade chamada “GOVEEEEERNO”.

    Quem tira o CU da reta não tem nada a ver com Governo. São os representantes do povo, no Congresso, que passaram a lei brasileira mais elogiada pelos juristas do mundo: a lei da meia-entrada. De fato, o Brasil é um dos poucos (não o único) paises com lei da meia-entrada para estudantes e, repito, é elogiado por alemães, italianos, franceses e outros justamente pelo que “eles” chamam de uma belíssima lei de inclusão de minorias desfavorecidas no processo de obtenção de mais cultura. O problema e que os estrangeiros elogiam o texto frio da lei sem conhecer o calor do brasileiro-típico.

    Talvez… apenas talvez, o CU culpado seja o do cidadão-padrão, o brasileiro médio, o seu amigo e o meu amigo (pois todos temos esses amigos) que frauda a carteirinha, o que o próprio texto diz ser 50% da massa da meia-entrada.
    Que tal fazer nova simulação desses valores todos retirando a fraude e imaginando que só usaria a carteirinha quem tem mesmo o direito? Será que não ficaria mais equilibrado?

    Por que culpar o ente (que já mostrei que tá errado, pois foram PESSOAS que VC e EU elegemos JUSTAMENTE pra criar essas leis sob nosso comando, com nosso mandato) em vez de assumir de uma vez que a culpa é nossa mesma, todos cheios de vontade de ganhar uma vantagenzinha porque “ah, tá todo mundo fazendo mesmo”?

    Quer tirar a lei da meia-entrada da sua vida? Escolha deputados melhores, se é que vc não é do grupo que acha que tá mudando o mundo votando nulo, é claro. Quem votou nulo, por certo, abriu mão do direito de escolher um representante na Câmara e não tem muita moral pra gralhar agora, exceto, é claro, pelo próprio prazer de gralhar.

    De mais a mais, força pro artista, força pro produtor, força pro público consumidor (que não é filhodaputa fraudador, fique bem claro), força pros bons deputados, força pra quem fala e chama ao debate, como o autor do texto.

    Mas, mais que tudo, força pra RAZÃO e INTELIGÊNCIA na hora de avaliar as coisas, né, gente?

    Abraço!

  12. Carolina Rosa disse:

    Foi a maior aula de matemática da vida. Se você não tivesse explicado isso eu continuaria achando essa lei da meia-entrada uma MARAVILHA criada pelo governo. Eu estava enganada.

  13. Joao Graack disse:

    Ou faz como em alguns shows por aí:

    – Ingresso normal: R$1.000,00

    – Estudante, idoso, deficiente ou quem doar 1kg de alimento: R$500,00.

    Está seguindo a lei e cobrando o preço real pra custear o evento, já que ninguém seria louco de negar 1kg de alimento pra pagar 500 mangos a mais.

    • Isabela disse:

      EXATAMENTE!!!!!

      Suponhamos que esta lei não esteja mais em vigor, vocês acreditam que todos os produtores optariam por cobrar R$500,00 ou tentar lucrar em cima deste valor ‘já que a inteira antes era mais cara mesmo’ ??

      Se quem estiver fazendo o show quer ser mais justo, a dica é simples e esta logo a cima. Ainda com o ‘plus’ de ajudar pessoas carentes. Perfeito.

      • eu disse:

        A doação de alimentos é ilegal , a opção seria ideal mas é ilegal =(
        E caros me perdoem a honestidade , sou do meio e sei como funciona até em shows gratuitos tem quem reclama , o mercado de eventos em SP sobrevive se arrastando , graças a picaretagem de ditos estudantes .

  14. “tirar o cu da reta” <- morri com essa…
    shaushaushaushaushas
    mas é bem assim mesmo, sabemos das dificuldades de hj em dia ,dos cantores e bandas "sobreviverem" só de música..particularmente, shows, pq ja nem conto mais a venda de cds, que infelizmente não e a mesma coisa de 10 anos atrás, são coisas da globalização, mas fazer o que, concordo com vc Vavo.
    ;)

  15. […] de uma das leis mais estúpidas do país: aquela que exige que não estudantes paguem o dobro e que estudantes paguem a metade do dobro em eventos […]

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